Ó vós todos, que passais pelo caminho,
Olhai e vede se há dor igual à minha dor!” (Lm 1,12)
Olhai e vede se há dor igual à minha dor!” (Lm 1,12)

Os pais do saudoso Marco (Marco era filho único), frequentadores do nosso convento, depois de algum tempo de ausência, hoje voltaram para a Missa das cinco. No fim da Missa gentilmente quis cumprimentá-los e surpreendentemente, não sem algumas lágrimas, disseram-me: “com a partida de Marco foi-se também um pedaço de nós e da nossa felicidade mas agora temos que encontrar forças para voltar a crer e a esperar”. Talvez quisessem da minha parte um discurso de consolação ou de confirmação mas eu não tive forças de pronunciar palavras limitei-me a abraçá-los e a segredar-lhes: “vos acompanho na oração”. Não sei se o meu abraço e a certeza da minha pobre oração transmitiram-lhes a minha veneração e a minha total sintonia com com a sua dor.
Estou certo que estes pais, trespassados pela “espada da dor” como Maria mãe de Jesus, meditando a tragédia da morte de um filho único encontrarão uma forte relação com a morte de um Outro Filho único: Jesus. Estou certo que saberão, talvez daqui a tantos anos, a reler estas duas mortes dramáticas á luz da revelação de um Deus que é sempre fiável. Sim, porque o mistério da Cruz, depois de um inicial espavento e descrédito, possibilita curiosamente o aproximar-se e o afirmar-se de uma fé sem precedentes. (Cf. O centurião vendo Jesus morrer afirma: “verdadeiramente este homem era Filho de Deus”). Somente a presença daquele que atravessou a existência humana com todas as suas imprevisibilidades e dramaticidades, inclusive o sofrimento e a morte inocente, sem nunca deixar de fiar-se incondicionalmente no amor de um Deus que ele chama de Pai. Cristo crucificado é a única presença capaz de habitar e de encher a solidão do corpo e do espírito que experimentam aqueles, como os pais de Marco, a perda de um ente querido como um filho único. É a este “homem das dores” que eu não cesso de rezar para que possamos todos, quando formos visitados pela dor, pelo sofrimento e pela até morte, continuar com os olhos fixos em Deus e possamos, atravessado o deserto da solidão cantar com Francisco de Assis: “Louvado sejas tu, ò meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal”. Estou convencido que na sua cruz Jesus não somente redimiu o homem mediante o sofrimento, a dor e a morte mas o próprio sofrimento, a dor e a morte foram redimidas. É a ele que confio esta família: os pais e o filho único: MARCO.
Sem comentários:
Enviar um comentário