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Ver, tocar, crer!

“Estando fechadas as portas da casa” A tristeza e o medo de acabar como o Mestre aferrolha os discípulos. A memória da cobardia na noite da traição paralisa-os! No entanto, Jesus vem. Vem porque não se escandaliza nem se impressiona com os nossos medos e feridas. Ele entra apesar da dureza e lentidão do coração, apesar das resistências e obstáculos. O Ressuscitado não se detém diante da inércia lacrimosa ou da incredulidade, mas está atento às dúvidas dos seus amigos e vai à procura da ovelha perdida, no pequeno rebanho dos onze. É ali que se aproxima, estende a mão e oferece os sinais do amor crucificado, porque nesses sinais o amor imprimiu toda a sua história com o alfabeto das feridas. Onde nós temos medo, Jesus vem para inundar-nos do sopro vital, alagando-nos de paz, fazendo-nos sair rumo ao outro. “Se não vir o sinal dos cravos, se não meter a mão no seu lado, não acreditarei” Como são pobres as nossas palavras que não conseguem testemunhar, dizer ou convencer alguém. Os primeiros discípulos vivem a incapacidade em transmitir a fé ao ausente Tomé. Este quer ouvir, ver, tocar Deus. Quer garantias e certezas mais do que teorias. Quer tocar aquela história de amor, aquela escolha de uma vida dada; quer acariciar com as próprias mãos a desmedida da paixão. Tomé não procura sinais gloriosos ou triunfais, mas os sinais vivos e abertos do amor. Nas mãos de Tomé, ávidas em tocar, estão também as nossas mãos duvidosas, à procura de um sinal, de uma prova. Tomé é a voz e o rosto das nossas dúvidas, da nossa dificuldade em acreditar. Mais do que meter o dedo nas chagas de Cristo, Tomé mete o dedo nas chagas da nossa pobre fé. Esta nasce da presença e do encontro. Enquanto não formos abraçados e envolvidos no jogo de amor e de dor de Deus, não poderemos afirmar: eu creio Senhor! “Meu Senhor e meu Deus” Aquele “meu” tão pequeno muda tudo! Não indica um deus desconhecido, um deus da teologia ou dos livros, mas revela o Deus emaranhado e entrançado na vida. Aquele “meu” é experiência do Espírito, que rouba o coração e dilata a existência, tal como “o meu amado é para mim e eu sou para ele” (Cântico dos cânticos). Aquele “meu” é um brado de felicidade que brota do coração! Para quem acredita a vida nem é mais fácil ou mais difícil, mais cómoda ou segura. Para o crente a vida torna-se mais cheia, apaixonante, ferida e vibrante, ferida e luminosa. Importante não é ter vivido com Cristo antes da sua morte, mas sim viver a vida que nasce da sua ressurreição! E isso, caros amigos, é Evangelho!

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Aqui escreves TU

Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem.  Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente c…

Aos pés da Cruz!

Muitas pessoas presenciaram curiosos a crucifixão de Cristo no alto do Calvário.  São muitos os que assistiam atónitos ao suplício de um homem inocente. mas, são poucos os que ficaram aos pés da cruz: a mãe de Jesus; a irmã de Maria de Nazaré, Maria de Cleofas e Maria de Magdala, e nos assegura mais a frente o evangelista que perto da mãe estava também o discípulo amado de Jesus. Um pequeno grupo de pessoas. Somente um pequeno grupo de fidelíssimos têm a coragem de não fugir e testemunhar a própria fé Nele. Somente poucos audazes, juntamente com Maria têm a coragem de suportar com Cristo a dor e o sofrimento por uma morte injusta. Hoje, na Solenidade da Virgem das Dores somos chamados a contemplar Jesus no maior gesto de obediência da sua história. Somos chamados a olhar para Cristo e o mistério da nossa salvação, através do olhar da Mãe.  Contemplar este drama na vida da família de Nazaré, o último evento que Maria vive com o Filho, é quase entrar nos sentimentos de uma mãe com um fil…