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Acolher o Bem!



Não ser estorvos para o bem
Parecia que João levava uma brilhante “folha de serviço”, guarnecida com esta demonstração de zelo em relação aos “direitos de autor” de Jesus e, diante das palavras do Mestre, fica com o entusiasmo cristalizado na garganta. A resposta de Jesus continua a ser para nós que ousamos definir quem é ou não digno de usar o seu nome como caminho para libertar e para fazer o bem; é para nós que apontamos levianamente um dedo sujo de preconceitos; é para nós que pugnamos por um monopólio sobre o nome e sobre a pessoa de Jesus. É bem real a tentação de instrumentalizar Deus, de usa-l’O e geri-l’O com os nossos cálculos tacanhos, de transformar a nossa fé num sectarismo intolerante, pejado de restrições e manuais de procedimentos. 
Admira-nos este Jesus que diz “quem não é contra nós é por nós”! Ficamos perplexos com este, aparentemente frágil, ligeiro e fácil, critério de ingresso no seu amor! Que libertador é o Mestre do amor que tem sempre um caminho estendido para quem O procure! Para Ele basta uma fenda aberta, por onde possa infiltrar-se a força renovadora do seu Amor porque, essa sim, é a moção mais forte e decisiva para o bem…

Se alguém escandalizar
Jesus demonstra-nos que, no fundo, tudo se resume a uma questão de acolhimento. Estas sentenças atingem um teor de extrema dureza, Ele quer fazer-nos notar como é grave a falta de acolhimento para com o outro, a loucura de querermos domar o Espírito que “sopra onde quer”. 
Este Evangelho desmascara a nossa atitude capitalista sobre o bem, que se baseia naquela mentalidade em que um soma e segue e em que o mais frágil é deixado à mercê da sua fragilidade. Jesus confia à nossa solicitude a fragilidade do outro. E não vamos a lado nenhum se vamos sós. É aqui que reside o segredo da comunhão, é o mistério da comunhão da Trindade, o milagre em que Deus nos faz participantes da Sua Vida e tanto nos valoriza, apesar da nossa miséria.

Cortar o mal pela raiz
O egoísmo é tão subtil perante a nossa natureza, atreita ao pecado! Sem uma disciplinada vigilância, o mal depressa se nos cola ao ser, de modo que parece ficar a fazer parte dos nossos membros, com tal à vontade que os subjuga. Corremos o risco de nem distinguirmos qual é a parte sã e a parte doente da nossa vida. Jesus convida-nos a fazer um diagnóstico muito sério e aponta-nos um critério infalível: uma ocasião de escândalo é sintoma certo de doença! Ele adverte-nos para o perigo que constitui na nossa vida aquele membro que foi tomado pela gangrena do egoísmo: a única solução é mesmo a amputação, a cirurgia radical. E isso mete-nos medo… medo de (nos) perder. Mas o que Jesus enfatiza não é a perda, é a verdadeira Vida! Ele não quer que continuemos a iludir-nos com uma vida preservada, mas podre, inútil, a fluir para o vazio. 
Amigos e amigas, não tenhamos medo de cortar o que é inútil e pernicioso para viver a vida de Deus. Ainda que tenhamos de sangrar, as chagas de Jesus, abertas na cruz, asseguram-nos a transfusão de um amor que nos cura, a Vida nova que nos garante a cicatrização da alegria. Precisamos de fazer uma revisão constante ao nosso coração para que ele deixe passar, sem o contaminar, o salutar caudal do Evangelho.

Comentários

Aqui escreves TU

Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem.  Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente c…

Aos pés da Cruz!

Muitas pessoas presenciaram curiosos a crucifixão de Cristo no alto do Calvário.  São muitos os que assistiam atónitos ao suplício de um homem inocente. mas, são poucos os que ficaram aos pés da cruz: a mãe de Jesus; a irmã de Maria de Nazaré, Maria de Cleofas e Maria de Magdala, e nos assegura mais a frente o evangelista que perto da mãe estava também o discípulo amado de Jesus. Um pequeno grupo de pessoas. Somente um pequeno grupo de fidelíssimos têm a coragem de não fugir e testemunhar a própria fé Nele. Somente poucos audazes, juntamente com Maria têm a coragem de suportar com Cristo a dor e o sofrimento por uma morte injusta. Hoje, na Solenidade da Virgem das Dores somos chamados a contemplar Jesus no maior gesto de obediência da sua história. Somos chamados a olhar para Cristo e o mistério da nossa salvação, através do olhar da Mãe.  Contemplar este drama na vida da família de Nazaré, o último evento que Maria vive com o Filho, é quase entrar nos sentimentos de uma mãe com um fil…