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Na ponta dos pés!


Escutando o Evangelho desta Segunda Feira Santa, 19 de Abril, somos todos inundados pela fragrância daquele “perfume” que um dia encheu “toda a casa” dos amigos de Jesus (Jo 12,3). Lázaro tinha saído vivo do sepulcro, a alegria tinha-se transformada numa fraterna ceia. “Marta andava a servir
e Lázaro era um dos que estavam à mesa com Jesus” (12,2). Maria, no entanto, literalmente fora de si, transforma a sua alegria numa gratidão sem confins: “tomou uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhos com os cabelos” (12,3).
O caminho em direcção ao Tríduo Pascal inicia assim, com uma excessiva onda de perfume na qual se prefigura e se intui todo o significado da paixão do Senhor Jesus. A linguagem da Páscoa se exprime e se compreende no campo do amor, onde o raciocínio, o cálculo prudente, a conveniência devem ceder o passo à lúcida loucura do dom gratuito.
Maria compreendeu a segreda beleza do Cristo. No estranho modo com que Jesus esperou e depois libertou Lázaro do mau cheiro da morte, Maria intuiu que o “servo” de Deus veio ao mundo para dar alegria e salvação. O fará porém humildemente, com extrema delicadeza: “Não gritará, não levantará a voz, não aclamará nas ruas. Não quebrará a cana rachada, não apagará a mecha que ainda fumega. Anunciará com toda a fidelidade a verdadeira justiça” (Is 42,2-3). Como um perfume, realidade impalpável que chega a todos os lugares, mudando tudo sem alterar nada. A salvação cristã não é a abolição dos limites do nosso ser criaturas ou os gerados pelo mau uso da nossa liberdade, mas é amor que enche de esperança todo o medo de viver e de morrer. É perfume que restitui dignidade a todas as coisas. Até ao pecado e à morte.
Não é imediato compreender e apreciar esta paradoxal modalidade de salvação. Existe em nós uma parte tão habituada a crer que viver consiste no possuir e dominar que muitas vezes não sabemos fazer outra coisa senão “fincar os pés” diante da lógica das bem-aventuranças: “porque é que não se vendeu este perfume por trezentos denários, para dar aos pobres?” (Jo 12,5) Em Judas vemos representada toda a humanidade desfalecida pela sua fraqueza mortal, que tem dificuldades em crer no doce poder do amor. Mas o Senhor comanda ao seu revoltado discípulo: “Deixa”. Somente obedecendo a este imperativo se entra na festa da Páscoa: abandonando as armas, renunciando os juízos, desobedecendo aos mesquinhos lamentos do coração. Na ponta dos pés!

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Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
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Aos pés da Cruz!

Muitas pessoas presenciaram curiosos a crucifixão de Cristo no alto do Calvário.  São muitos os que assistiam atónitos ao suplício de um homem inocente. mas, são poucos os que ficaram aos pés da cruz: a mãe de Jesus; a irmã de Maria de Nazaré, Maria de Cleofas e Maria de Magdala, e nos assegura mais a frente o evangelista que perto da mãe estava também o discípulo amado de Jesus. Um pequeno grupo de pessoas. Somente um pequeno grupo de fidelíssimos têm a coragem de não fugir e testemunhar a própria fé Nele. Somente poucos audazes, juntamente com Maria têm a coragem de suportar com Cristo a dor e o sofrimento por uma morte injusta. Hoje, na Solenidade da Virgem das Dores somos chamados a contemplar Jesus no maior gesto de obediência da sua história. Somos chamados a olhar para Cristo e o mistério da nossa salvação, através do olhar da Mãe.  Contemplar este drama na vida da família de Nazaré, o último evento que Maria vive com o Filho, é quase entrar nos sentimentos de uma mãe com um fil…