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A força da Palavra!


Iniciámos o período da Quaresma já alguns dias. Por isso, talvez fosse necessário, recordar-nos estas palavras «não só do Pão o homem vive», mas «de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4,4). A palavra que sai do coração do Senhor é sempre «viva, eficaz» (Eb 4,12), como o profeta Isaias consegue explicar com uma imagem de rara beleza: «Assim como a chuva e a neve descem do céu, e não voltam mais para lá, senão depois de empapar a terra, de a fecundar e fazer germinar, para que dê semente ao semeador e pão para comer, o mesmo sucede à palavra que sai da minha boca não voltará para mim vazia, sem ter realizado a minha vontade e sem cumprir a sua missão.» (Is 50,10-11). Esta extraordinária força produtiva da palavra deriva do facto que quando Deus fala não existe nenhuma fractura entre o que diz e o que faz. As suas palavras são frutuosas porque contêm promessas autênticas, porque são «factos» em antecipação. Por isso conseguem operar maravilhas naqueles que as acolhem e as consideram merecedoras de confiança (cf. 1Ts 2,13).
Ao contrário, nós homens somos capazes de dizer e depois não fazer, de prometer e depois não manter a promessa, de seduzir sem realmente querer bem. Assim da nossa boca saem palavras vãs (cf. Mt 12,36), sons não acompanhados de nenhuma força, que não produzem nada, pelo contrário dos quais devemos certamente «prestar contas no dia do juízo» (12,36). Usando uma linguagem maiormente bíblico, podemos dizer que existe em nós a capacidade de comportar-se como falsos profetas, tornando-se para o mundo e pelos outros reflexos opacos de Deus, filtro que não deixa transparecer o seu verdadeiro rosto.
No tempo da Quaresma as Escrituras nos aconselham a começar, antes de tudo, a poupar palavras, reduzindo aquele esbanjamento de sons que muitas vezes criam confusão nas relações quotidianas e introduzem ilusões nas nossas almas. A começar pela nossa relação com Deus, visto que « o vosso Pai sabe o que tendes necessidade, antes que lho peçais» (6,8), assegura o Mestre Jesus. Vale a pena não esquecer nunca que Deus, a quem dirigimos os nossos gemidos, sabe bem quem somos e aquilo que necessitamos. Nós, sim, ignoramos quanto a sua «vontade» possa tornar-se para nós, aqui «na terra» (6,10), qualquer coisa que nos sacia em profundidade, «o nosso pão de cada dia» (6,11). Purificar a oração dos excessos verbais é escola de paciência e de humildade. Educa-nos a crer que muitas das felicidades que procuramos, na verdade, nos espera já algures. Rezar ao Pai com poucas palavras significa aprender a manter-se docilmente diante da sua vontade, esperando que se torne rapidamente também a nossa. Confiando que os nossos desejos serão escutados não por força de palavras, mas com palavras carregadas de esperança. Palavras sóbrias, sinceras, cordiais, que um filho dirige com naturalidade ao próprio Pai. Palavras que saem com a certeza de não poder jamais voltar para trás “sem efeito”. Como faz a chuva. Como faz a neve.


Comentários

Aqui escreves TU

Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem.  Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente c…

O carinho do Papa Francisco que irrita muitos padres

É uma coisa maravilhosa mas, por exemplo, também João Paulo II foi à cadeia encontrar o seu assassino Ali Agca. Mas desta vez, aposto, acontecerá que alguém da minha paróquia me perguntará porque razão, a partir do momento que o Papa foi até Calábria, porque eu não vou nem mesmo visitar a senhora Pina que habita numa casa popular, e passou todo o inverno sem aquecimento porque não se fez a reparação no sistema. Sempre em Calábria, na missa da tarde de ontem disse: “a ‘ndrangheta é isto: adoração do mal e desprezo do bem comum”, “os maviosos, não estão em comunhão com Deus, são excomungados” e a minha gente não fará comparação com João Paulo II em Agrigento, mas perguntará a mim porque nas minhas homilias sou assim tão politically corect Sempre ontem, de manhã aos padres como eu dizia que não devemos pôr “ao centro nós mesmos e assim em vez de sermos canais tornamo-nos ecrãs” e estou certo que basta me sentar no confessionário e escutar com superficialidade, alguém, seguramente, me r…