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A Minha Família e... EU

Podemos mudar tudo (ou quase...) mas não o dado evidente que viemos ao mundo porque outros nos quiseram. Não fui eu que decidi vir ao mundo, mesmo se disto sou muito feliz. Quem eu serei hoje, se não me fosse feito homem em diálogo com um outro que mi quis bem quando eu não podia querer-me bem sozinho?  
Me bastaria o leite (mesmo em pó...) sem o afecto de uma mulher para dar bem na vida? 
Estaria aqui, agora sem as noites em branco dos meus, os quilos de fralda que me trocaram, as discussões para poderem cuidar de mim?
Mesmo nas histórias muito feridas, aquilo que nos dá um pouco de alegria é a memória dos momentos em que nos sentimos amados gratuitamente, de maneira “pura” por alguém. 
Como me sentiria emotivamente diferente sem o nutrimento do amor estável e continuativo dos pais que tive? 
Quais as consequências produziu em mim o diminuir do amor sincero, estável e leal da parte dos meus pais?
Quais as sensações provei, já adulto, diante da morte dos meus pais (se isto já aconteceu)? O que ainda guardo deles e o que, ao contrário se perdeu?
Tomo consciência que a necessidade de amor é para mim como a necessidade que o coração, o cérebro, continuam a funcionar mesmo sem que eu o peça, mesmo quando não tenho o comando, mesmo quando durmo.    
Enquanto coloco estas perguntas, tenho a sensação de encontrar-me no centro de mim mesmo, onde bate o coração do meu ser como pessoa neste misterioso e fascinante universo. Devo admitir (ou melhor, reconhecé-lo faz-me sentir vivo) que aprendi a saborear o amor porque alguém mo ensinou doando-mo no início da minha vida sem fazer-mo pagar de nenhuma forma, sem que eu pudesse merece-lo. 
Este amor gratuito que me fez existir tem o rosto do meu pai e da minha mãe: cada gesto de compreensão ou de incompreensão confirma em mim a lúcida consciência de ter crescido em relação com esse homem e com essa mulher. 
Se hoje posso experimentar a alegria intensa e dramática de querer bem a alguém o devo aos dois: isto faz nascer dentro de mim uma gratidão profundíssima, que me ajuda a perdoar mesmo os seu erros e as suas contradições. 

No princípio de mim está o amor do meu pai e de minha mãe: deles escutei, e depois eu mesmo descobri que no princípio da nossa existência está o Amor de Deus que é Pai e Mãe. A consciencialização do meu ser nascido só Amor faz-me esperar poder ser destinado ao amor, através da vocação à paternidade e à maternidade, em todas as suas expressões humanas. E tu…?    

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Aqui escreves TU

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"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
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Aos pés da Cruz!

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