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FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM



(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)

É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem. 
Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente como história de salvação, pão e vinho aparecem juntos, em casal e assumem um significado extraordinário, atestado em toda a Escritura, até ao gesto eucarístico de Jesus sobre pão e vinho (Mc 14,22-25; 1Cor 11,23-25). É Melchisedek, rei e sacerdote pagão, que aparece imprevistamente no fim de uma batalha vencida por Abraão: “Melchisedek ofereceu pão e vinho” (Gen 14,18). Não se sabe de onde vem, nem quem é, nem porque faz aquele gesto tão gratuita. Trouxe pão e vinho para comer com Abraão? Para os oferecer a Deus? Ele faz um gesto simples, acompanhado por palavras de benção a Abraão e ao Deus Altíssimo: um gesto e as palavras que o acompanham, portanto, um rito que celebra um encontro, um dom, uma condivisão vivido pelo próprio Abraão, que doa ao outro a décima parte dos seus bens (Gen 14,20). 
A partir desta breve e misteriosa página do livro de Génesis, pão e vinho aparecem muitas vezes em casal em toda a Bíblia: são realidades na vida do homem, tornam-se metáfora, assumem promessa escatológica…

Comida de vida eterna
O pão, feito de farinha era parte da dieta quotidiana e era de tal maneira presente e determinante que era sinónimo de comida indispensável para viver: “São coisas indispensáveis para a vida: água, pão, roupa e casa para preservar a própria intimidade” (Eclesiástico 29,21). As adversidades, as carestias podia fazer do pão um bem raro, que falta às necessidades do homem e então vinha chamado “pão das lágrimas” (Sl 80,6). Quando, porém, era disponível ou até abundante era o pão da alegria, sobretudo o pão da partilha: comer o pão regularmente com alguém significava viver uma solidariedade, um parentesco, uma amizade (Sl 41,10); partilhar o pão com o pobre, com o viajante, o faminto significava viver o amor fraterno, a comunhão. 
Sim, porque o pão é visto sempre como um dom de Deus (Sl 136,25), sinal da sua benção sobre o trabalho do homem, sobre a terra tornada fecunda, sobre os justos que através de uma misteriosa justiça imanente são por Deus protegidos e sustentados (Sl 37,25: “Nunca vi o justo abandonado nem os seus filhos a mendigar pão”). Muitas vezes se proclama que Deus dá pão aos famintos (Sl 105,40; 146,7), que Deus faz crescer o trigo nos campos e colinas (Sl 147,8) que Deus quando dá a sua bênção ao seu povo e aos justos assegura-lhes sempre o pão de cada dia (Sl 37,25-26;132,15). Por isso o pão aparece como oferta por excelência feita aos hóspedes (Gen 18,5). 
Mas o pão para além de ser comida para os homens é também uma realidade presente no ritual religioso de Israel, não para oferecido a Deus em sacrifício, porque o Deus de Israel rejeita qualquer nutrimento (Jz 13,16; Sl 50,12-13), mas para ser um grande sinal diante de todo o povo. De facto no templo diante do Santo dos Santos, lugar de presença de Deus, sobre uma mesa deviam estar sempre doze pães (Ex 25,30; 1Cr 9,32), sinal e testemunho da comunhão entre Deus e os seus fiéis. Temos também o pão ázimo na celebração da Páscoa, memorial da saída à pressa do Egipto que tinha dado tempo para fermentar a massa (Ex 12,8-11), mas também recordação da vida nómada de Israel. 
O mais extraordinário uso metafórico do pão será, porém, aquele de Jesus no seu discurso na sinagoga de Cafarnaum, depois da multiplicação dos pães (Jo 6): aqui o pão torna-se metáfora da palavra e da vida em Cristo, do seu próprio corpo oferecido para a vida dos homens. E não deve ser negligenciado que o pão estará ainda presente no banquete escatológico do Reino “feliz daquele que comerá o pão no Reino de Deus” (Lc 14,15). Será um “pão novo” que hoje não conseguimos discernir ou imaginar: será um “pão da vida eterna” (Jo 6,35.48-51), isto é pão da vida, da mesma vida de Deus.

Cálice da salvação
Se o pão representa a necessidade - “dai-nos hoje o pão de cada dia” (Mt 611) - o vinho representa a não necessidade, a gratuidade. 
Pão e vinho são ambos produtos da terra (e portanto da natureza) e do trabalho, melhor da cultura,  do homem. São, os dois, frutos da bênção de Deus. Têm porém um fim diferente: o pão serve para viver, o vinho para celebrar o viver. O vinho é excedência do necessário, é a alegria e o canto que entra numa refeição e está sobre a mesa: eis porque nos Salmos 104,15 é dito que “o vinho alegra o coração do homem” enquanto “o pão dá força”. Mas é exactamente pela sua gratuidade que o vinho pode ser facilmente consumado até ao excesso. Por isso os sábios de Israel não se limitam a tecer elogios ao vinho, mas chama a atenção sobre os seus possíveis efeitos de desorientamento e violência (Provérbios 23,30-35; Eclesiástico 19,1-2; 31,25-30), como fará depois Paulo (Ef 5,18).
Também o vinho estava presente no culto de Israel (Ex 29,40; Nm15,5-10); Fazia parte das primícias para os sacerdotes mas que era proibido por motivos ascéticos aos mesmos sacerdotes durante o exercício do culto no templo, a um grupo de israelitas, os recabitas que queriam conservar a recordação da vida nómada quando não se bebia vinho (Jeremias 35,1-11) e a quantos ofereciam a Deus toda a sua vida através do nazireato (Nm 6,1-21): entre estes últimos basta lembrar os exemplos de Sansão (Juízes 13,3-5) e João Baptista (Lc 1,15). 
Quanto às metáforas ligadas ao vinho, ele evoca o amor entre o homem e a mulher (Cântico 1,4; 4,10), a amizade (Eclesiástico 9,10) e toda a alegria que é permitido aos homens experimentarem sobre a terra (Eclesiástico 31,27; Zacarias 10,7). E como o vinho assume a característica de ser inebriante mas também, muitas vezes, torna-se ácido e mau pode ser considerado metáfora do juízo de Deus: vinho da cólera de Deus sobre alguns (Jeremias 51,7; Apocalipse 4,8), vinho das bem aventuranças para os outros (Oseias 2,24; Amós 9,13-14). “O vinho é vida” (Eclesiástico 31,27) e estará presente, ao lado do pão, no Reino de Deus. É o próprio Jesus que o disse: “em verdade vos digo que não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beberei de novo convosco no Reino do meu Pai” (Mt 26,29). Então haverá vinho abundante, haverá um banquete com vinhos rafinados (Isaías 25,6): o vinho da bem-aventurança e da alegria, vinho que é a mesma vida de Jesus Cristo, vida que é o Espírito Santo...                     

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