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Um gesto autêntico...



Quem te avisa…
Perante o aviso de Jesus, com que o texto começa, podemos pensar: se ele diz “acautelai-vos” estará a advertir para algo que vem de fora, para o qual me devo precaver. Uma análise mais séria leva a adentrar-me pelas avenidas do meu ser e a descobrir esse escriba enterrado nas minhas motivações. Não será esse escriba o responsável por destabilizar a minha humildade e verdade face aos outros? Talvez seja ele o que coloca um verniz à frente da minha falta de autenticidade; talvez seja ele a ditar-me certas regras de competição desenfreada, de busca de atenções, de defesa dos “meus direitos”, de uma implacável indiferença perante os detalhes do irmão. Urge, então, localizar e denunciar esse escriba… E esse escriba provavelmente sou eu!
Não tenho hipótese de ludibriar Deus com a soma avultada do meu trabalho pelo seu Reino, com a incontável lista das minhas obras de piedade, com a sobra de palavras... Deus não se suborna com esmolas. O desafio que Jesus me deixa é o de converter a minha vida interior, num manancial a fundo perdido...

Veio uma pobre viúva
Mas a viúva pobre também nos vem causar problemas. Primeiro: que estranho este Deus que se compraz nos pobres, que simpatiza com os fracos! Teremos de passar pela penúria para que Ele se interesse por nós? Segundo: como pode ser elogiada a tremenda imprudência desta mulher que dá tudo o que tem? Ela vai agravar a crise humanitária, é mais uma na conta dos que têm de ser socorridos pela assistência social… 
Há aqui qualquer cumplicidade entre ela e Deus que, à primeira, nos escapa. A nossa lógica é a independência… face a Deus e face ao outro. Não toleramos pensar que somos indigentes, que, de algum modo, dependemos dos outros, ainda que o Outro seja Deus. Gostamos muito mais de ser nós a dar esmolas, a mostrar, a ostentar… a deixar um débito na conta do outro e cobrar-lhe juros quando se proporcionar. No fundo batemos sempre na mesma tecla: queremos colocar-nos no lugar de Deus. A pergunta que temos de fazer é esta: qual é o nosso Deus? Ou seja, para onde encaminhamos a nossa confiança?

O que é dar?
Os ricos davam, a viúva deu? Na verdade, nós nunca damos nada. Tudo o que nos passa pelas mãos é pura gratuidade de Deus. Vivemos num ambiente em que tudo é (de) graça. Não se trata de deixar de lado o nosso esforço, nem de enveredar pela atitude passiva de quem acha que tudo se resolve por si. Trata-se de deixar fluir pelas nossas mãos a incomensurável riqueza de Deus que é nossa, mas é d’Ele. Trata-se de lhe dizer: confio em ti, e entrego-te aquilo que de ti recebo, o que tenho e sou; é na tua presença que me abrigo, é sob o teu horizonte que sonho, é da tua vida que me alimento é para o teu rosto que caminho. 
Amigos e amigas, a viúva pobre é um perfeito ícone da nossa condição perante Deus. É pobre de bens e é viúva… pobre de relações. Ela é a expressão de uma pura dependência de Deus. Porque é Ele o sustentáculo das coisas que fruímos e das pessoas que amamos. É Ele Quem dá valor aos bens, e a beleza a tudo o que é belo. Só n’Ele integramos a profundidade e a verdade de nos amarmos. É Ele o único pelo qual podemos aferir a nossa gestão de bens e de relações. A oferta da viúva é tudo o que tem para viver, é a sua vida e ela manifesta um percurso claro para a sua vida: vem de Deus, vai para Deus, pois está em Deus. E isto porque… verdadeiramente tudo o que possuímos para viver é Deus. E isto é Evangelho!

Comentários

Aqui escreves TU

Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem.  Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente c…

O carinho do Papa Francisco que irrita muitos padres

É uma coisa maravilhosa mas, por exemplo, também João Paulo II foi à cadeia encontrar o seu assassino Ali Agca. Mas desta vez, aposto, acontecerá que alguém da minha paróquia me perguntará porque razão, a partir do momento que o Papa foi até Calábria, porque eu não vou nem mesmo visitar a senhora Pina que habita numa casa popular, e passou todo o inverno sem aquecimento porque não se fez a reparação no sistema. Sempre em Calábria, na missa da tarde de ontem disse: “a ‘ndrangheta é isto: adoração do mal e desprezo do bem comum”, “os maviosos, não estão em comunhão com Deus, são excomungados” e a minha gente não fará comparação com João Paulo II em Agrigento, mas perguntará a mim porque nas minhas homilias sou assim tão politically corect Sempre ontem, de manhã aos padres como eu dizia que não devemos pôr “ao centro nós mesmos e assim em vez de sermos canais tornamo-nos ecrãs” e estou certo que basta me sentar no confessionário e escutar com superficialidade, alguém, seguramente, me r…