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Francisco, entre MUROS que caem e PESSOAS vivas


Semana Franciscana

Quando se ouve falar da vocação de São Francisco de Assis é comum ouvir contar o seu encontro com Jesus na igrejinha de São Damião. Á pergunta: “que queres que eu faça?”, Cristo teria falado, pedindo-lhe para reparar a sua casa em ruínas. É também bastante conhecido a dúplice compreensão de tal pedido: primeiro Francisco o teria interpretado materialmente, iniciando imediatamente a reconstruir aquela e outras igrejinhas em redor de Assis. Só num segundo momento teria entendido que era a esposa de Cristo, a comunidade dos crentes, a Igreja com “i” maiúscula a que devia reparar.
Pessoalmente acho que este modo de apresentar Francisco e a sua chamada seja insuficiente porque muito espiritualista por, ao menos, dois motivos: antes de tudo, a demasiada facilidade com que se fala de Deus, risca de esvaziar a experiência do homem e da experiência vital que possui. As experiências que São Francisco viveu antes da sua conversão - a sua participação na guerra, a sua tentativa de obter o título de cavaleiro- são fundamentais para compreender não só quem era Francisco, mas também quem se tornaria no futuro.
Facilmente ouvimos definir estas experiências como negativas devido àquela espécie de profunda desilusão que teriam deixado no próprio Francisco. O que é verdade, mas que não nos deve fazer esquecer que os acontecimentos da nossa vida são a nossa história, e é com esta que o Senhor entra em contacto: connosco certo, mas não com um nós desencarnado e abstracto, mas sim com aquele nós que tomou decisões e efectuou um certo percurso de vida.   
Lá onde, escolhas e caminho que delas se delineiam, não são reduzíveis a pacotes que podemos deixar de lado ao nosso belo prazer. Aquelas experiências constituem o nosso eu, a nossa realidade. Realidade com a qual - gostemos ou não - devemos aprender a fazer as contas. Tanto mais se, como Francisco, o nosso passado tenha sido doloroso. Mas existe um outro motivo que nos impede de reduzir a vocação de Francisco - toda vocação -  a um intimista relação homem - Deus. Existe um encontro na vida de Francisco que precede aquele com Cristo: o encontro com a realidade da lepra. Este - mais ou menos romântico episódio do beijo ao leproso - é o elemento que determina uma mudança radical no interior do jovem de Assis. Através deste impacto Francisco descobre uma dimensão da qual, até então, riquezas e boa vida tinham mantido longe. É uma dimensão humana, fortemente humana, onde este adjectivo sublinha a aderência à realidade e á vida. É por isto - para um crente - fortemente divina. Refiro-me não à dor mas á realidade da misericórdia, do coração que se faz terno e se activa diante da dor, da necessidade do outro, não mais visto como um inimigo (no nosso caso um portador de contágio) mas um pobre, um necessitado que move a minha pessoa ao socorro, a tomar conta, a cuidar, se o meu coração não tornou-se como pedra, se quero ainda ter a coragem de olhar para o espelho sem sentir nojo de mim mesmo. Vida concreta e relação de misericórdia: são estes antecedentes ao diálogo com o crucifixo de São Damião. 
Francisco efectuou uma longa e significativa evolução já dentro a primeira parte da sua vida e o seu coração iniciou a preparar-se para qualquer coisa maior que a procura de si mesmo, quando se abriu ao outro.  
Se, depois do olhar falante do Homem da cruz de São Damião, Francisco lança-se  numa busca apaixonada do seguimento de Cristo e do seu Evangelho - aventura que o levará à santidade, mesmo que através de um itinerário não privo de ilusões, passos falsos e recaídas - foi porque tinha procurado já antes: Jesus lança a sua proposta de realização segundo os seus critérios numa existência que desejava profundamente o bem para si, mesmo se a sua busca até então, se tinha concentrado em realidades que o tinham desiludido: poder, violência, fama, honra, dinheiro, haveres. E a caridade de Cristo, aquele amor generoso até o absurdo que sobre a cruz se manifesta na sua máxima evidência, não se radica num coração que se nutre de injustiça e de egoísmo: só um Francisco que se abaixa diante do leproso com misericórdia, pode acolher a proposta que Jesus faz aos seus discípulos: “toma a tua cruz de todos os dias e segue-me”. Dando um ulterior passo em frente. Jesus não mostrou-se espantado diante da história dos seus discípulos mesmo que fossem pecadores, pobres pescadores ou meio delinquentes. Dirá a Pedro: “não temas, farei de ti pescador de homens”. E lhes gritou, muitas vezes até com dureza, quando esqueciam ou tinham dificuldades em comportar-se como homens. Ressoa também para nós, ainda hoje, aquele: “não compreendeis ainda? Tendes o coração endurecido?” Vocação, portanto, como conhecimento, escolha e vida atrás de Jesus, certo. Mas com os pés bem radicados na própria história, qualquer ela tenha sido, e dentro uma humanidade autentica, descoberta e acolhida.  

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