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Vinde e descansai!






“Vinde comigo para um lugar isolado e descansai”
Os discípulos regressam com as pernas cansadas mas com o olhar enriquecido pela partilha de sonhos e de sofrimentos, voltam com o coração saciado de pessoas e de encontros. E imagino a avalanche dos diálogos, cheios das experiências vividas de casa em casa. Eles retornam à fonte que é Jesus. Este, em vez de os reenviar logo na missão que urge, condu-los ao deserto, onde Deus fala ao coração, convida ao repouso, ao encontro no silêncio valorizando o “ser” sem se alienar no “fazer”. Ocorre saborear a vida, sem que o insucesso deprima e sem que o êxito envaideça.
Alguns até podem sentir-se indispensáveis, como se tudo dependesse deles e dos seus activismos vazios de sentido. Mas, os apóstolos sabem que não são a nascente; são simples semente escondida nas mãos do Semeador; são pequena grafia de uma Palavra que os ultrapassa.
Hoje, a vida é um frenesim e a pessoa uma peça da engrenagem da máquina do tempo que nunca pára. Aceitar parar com Jesus significa abandonar-se nos seus braços, reclinando a própria vida no seu coração. Repousar com Cristo é vencer a tentação de fugir de Deus e até de si próprio. É tempo para contemplar as maravilhas que Ele realiza em nós e através de nós! É tempo para narrar a beleza e saciar-se da presença amiga, enamorando-se da vida. É tempo de ir àquele santuário de beleza que só Deus pode acender.
“Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se”
O Evangelista fotografa, nesta frase, os olhos do Mestre e tira a radiografia do seu coração. Jesus, ao ver a multidão sem pastor, sente apertar-se-lhe a alma, deixa-se tocar no mais íntimo, onde a humanidade toca a divindade e a divindade vibra com a humanidade. Amigos, Deus comove-se! Ele também se comove por nós, como o pai pródigo no abraço ao filho mais novo ou como a mãe que se compadece nas lágrimas e sorrisos do filho.
No início da jornada Jesus tinha um programa. Contudo, está disposto a modificá-lo porque a multidão conta mais do que um calendário, porque primeiro está a ovelha perdida, porque o amor não pode esperar. A pobreza, a fome de amor, os anseios do outro… contam sempre muito mais aos ouvidos de Deus. Mesmo estando nalgum lugar isolado, o amor não faz férias, não repousa, não dá tréguas diante de alguém que estende as mãos, invocando pão e paz.
Começou a ensinar-lhes muitas coisas
Jesus não ensina teorias, mas ensina principalmente a “arte da compaixão”. Ensina a comover-se e a sentir pelo outro; ensina a beleza do amor, a brecha da misericórdia. Ocorre deixar-se comover, sem procurar desculpas, sem bloquear o milagre. Quando nos comovemos, enxertamos na nossa alma os que são motivo da nossa comoção. Com-mover-se é sempre mover-se com o outro, ao ritmo do seu coração.
O discípulo vive apaixonado de pessoas e de encontros, tem um coração insaciado de humanidade, não se cansa de partilhar os descansos de Deus, ama os silêncios que são preenchidos pela sua voz. E Jesus ensina a reconquistar o íntimo, a retomar nas mãos o tempo, a renovar o sentido e a profundidade da vida, a redescobrir o único pastor que a orienta. E isso, caros amigos e amigas, é Evangelho!

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Aqui escreves TU

Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem.  Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente c…

Aos pés da Cruz!

Muitas pessoas presenciaram curiosos a crucifixão de Cristo no alto do Calvário.  São muitos os que assistiam atónitos ao suplício de um homem inocente. mas, são poucos os que ficaram aos pés da cruz: a mãe de Jesus; a irmã de Maria de Nazaré, Maria de Cleofas e Maria de Magdala, e nos assegura mais a frente o evangelista que perto da mãe estava também o discípulo amado de Jesus. Um pequeno grupo de pessoas. Somente um pequeno grupo de fidelíssimos têm a coragem de não fugir e testemunhar a própria fé Nele. Somente poucos audazes, juntamente com Maria têm a coragem de suportar com Cristo a dor e o sofrimento por uma morte injusta. Hoje, na Solenidade da Virgem das Dores somos chamados a contemplar Jesus no maior gesto de obediência da sua história. Somos chamados a olhar para Cristo e o mistério da nossa salvação, através do olhar da Mãe.  Contemplar este drama na vida da família de Nazaré, o último evento que Maria vive com o Filho, é quase entrar nos sentimentos de uma mãe com um fil…