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Nós e a política!


De entre os problemas que o nosso país enfrenta ocupa, sem dúvidas, o lugar de destaque o crescente desinteresse dos nossos jovens e não só em relação à política. O degrado de certas instituições, a perda de credibilidade da classe política, os sintomas de alguma corrupção nunca apurada e condenada e nos últimos anos a acusação transversal da compra das consciências durante os actos eleitorais, são factores que concorrem para a acentuação do desinteresse que outras democracias em outras partes do mundo já conhecem, onde certos fenómenos são, ou parecem ser, menos marcantes mas onde a distância, por exemplo, dos jovens da política é a mesma ou até maior. 
Responder à esta crise de confiança fazendo apelo aos ideais ou aos valores, significa - aos olhos de muitos - tocar o ridículo, dado que - se observa - exactamente em nome dos ideais e dos valores se consumam injustiças colossais em desfavor de muitos cidadãos. Basta analisar o fenómeno (não novo mas agora crescente e desavergonhadamente disseminado) da compra de votos. 
Existe uma boa dose de verdade nesta suspeita em relação á política e aos políticos, porque muitas são as palavras e promessas pronunciadas em passado e agora nas últimas eleições e, muitas se revelaram falsas e sem fundamento e os seus actores nunca foram ou serão responsabilizados. Mas isto não justifica tout court o sistemático e preconceituoso descrédito em relação à política, que contínua a ser, apesar de tudo, uma forma eminente de serviço ao homem e de procura do bem comum. 
Deve-se, outrossim, considerar que não se pode dispensar a política e nem mesmo refugiar-se debaixo do pressuposto que os cenários da política continuam vazios. Eles estão cheios, inevitavelmente cheios, dado que uma sociedade tem necessidade de ser governada; o problema é saber se este cenário será ocupado pelos melhores ou então pelos medíocres ou maus. 
Abster-se da política, qualquer que seja a justificação, não significa acabar com ela, mas abandoná-la a outros com o risco de ulterior degeneração ou talvez aberrantes aventuras que muitos povos viveram no passado ou vivem ainda hoje em que o poder foi dado a homens que não eram dignos de exerce-lo. 
Não nos resta outra alternativa então senão redescobrir a política, ou melhor reapropriar-se dela partindo das pequenas coisas e dos problemas concretos da realidade territorial na qual estamos inseridos. Talvez seja justo desconfiar da “grande política” longe das pessoas, mas é nosso dever enquanto cristãos ocupar-se da “pequena política”, dos problemas reais dos homens que nos circundam: o trabalho, a segurança, a saúde, a habitação… Movendo a partir daqui será possível perceber o sentido da política e o quadro no qual se insere o empenho pelo trabalho e pela segurança, pela saúde e pela habitação. Às pessoas individuais é possível intervir num primeiro nível; mas a um nível mais elevado, aquele que toca às instituições, pode-se operar somente se se junta aos outros. Podemos chamar esses agrupamentos de movimentos ou partidos, mas este estar juntos para projectar e procurar construir uma sociedade melhor é uma passagem indispensável para aqueles que querem colocar-se ao serviço do bem comum. 
Eis porque é necessário que tenhamos sempre jovens e menos jovens disponíveis para se empenharem no âmbito político com generosidade, com desinteresse, com dedicação; sabendo que a política não é tudo, mas que também é importante e que vale a pena dedica-la uma parte do próprio tempo e, se necessário, da própria vida. 
É neste sentido também a política é uma vocação,  entre as altas e mais nobres. Que alguns não estejam á altura desta missão não justifica o descrédito da política. Pelo contrário exige que surge de entre os cristãos quem mais dignamente saiba ocupar o lugar daqueles que, espontaneamente ou não abandonado um espaço malmente ocupado. 
Infelizmente, nós os cristãos em Cabo Verde, com o nosso incompreensível silêncio, não temos ajudado a formar consciências neste sentido. Estamos mais preocupados com a nossa sacristia como quem diz: “isto de política não é connosco”, esquecendo-se porém que, parafraseando o poeta francês J. Renard, não ocupar-se seriamente da política é como não ocupar-se da vida, não ocupar-se dos homens.             

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