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Templo vivo!

Depois de ter-nos conduzido à silenciosa pobreza do deserto, onde emergiu aquilo que existe no homem e depois sobre o místico monte da transfiguração, onde se manifestou a grande confiança do Pai na humanidade assumida pelo Filho, a liturgia deste Domingo imprime uma aceleração no nosso caminho quaresmal levando-nos ao lugar sagrado por excelência, onde aparece qual é o culto e qual é a humilhação que o homem está a viver diante de Deus. Ali Jesus, devorado pelo zelo e tomado por uma ira incontenível, reage com veemência ao triste espectáculo de uma casa de oração reduzida a empório do sagrado: «então fez um chicote de cordas e expulsou-lhes para fora do templo». As palavras que acompanham este gesto profético permite-nos compreender a origem de tanta intolerância: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio» (Jo 2, 16). A partir do seu relacionamento filial com Deus, Jesus não pode senão interpretar como uma dramática deformação um culto religioso alimentado por uma mentalidade de tipo económico. Não só porque as lógicas do mercado são profundamente incompatíveis com a gratuidade sobre a qual se fundam as relações autênticas, mas ainda mais porque a ideia de ter que se apresentar a Deus com uma oferta adquirida exprime a não aceitação daquela pessoal e radical pobreza que é chamada a entrar em aliança com o poder de Deus. O Senhor Jesus enche-se de ira diante de uma religiosidade construída sobre a remoção e não sobre a aceitação da realidade, onde alguém se vê obrigado a encher as mãos de presentes em vez de doar a verdade do próprio existir. As palavras do apóstolo são testemunho daquele diferente modo com que Jesus Cristo interpretou a aventura da sua humanidade, não como um lugar para encher com bens supérfluos, mas como um templo em que a fraqueza não é somente planamente acolhida mas também celebrada e levada á salvação: enquanto os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria. Nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios ( 1Cor 1, 23). Antes de ser manifestação do amor maior, a cruz revela a absoluta mansidão com que o Verbo escolheu levar a escolha da encarnação. A meio deste tempo de purificação e de preparação para a celebração do Mistério pascal, a liturgia deste Domingo nos reconduz à nossa realidade de criaturas, necessitadas de reconciliar-se com a própria fraqueza. Neste êxodo do medo daquilo que somos para a alegria de sermos amados, Deus nos acompanha desde sempre com os dez mandamentos, ensinamentos de vida que nos recordam como é impossível entrar na promessa da terra sem aceitar a providencial e complexa trama de dependências com os quais se compõe o tecido da nossa vida.

Comentários

Aqui escreves TU

Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem.  Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente c…

O carinho do Papa Francisco que irrita muitos padres

É uma coisa maravilhosa mas, por exemplo, também João Paulo II foi à cadeia encontrar o seu assassino Ali Agca. Mas desta vez, aposto, acontecerá que alguém da minha paróquia me perguntará porque razão, a partir do momento que o Papa foi até Calábria, porque eu não vou nem mesmo visitar a senhora Pina que habita numa casa popular, e passou todo o inverno sem aquecimento porque não se fez a reparação no sistema. Sempre em Calábria, na missa da tarde de ontem disse: “a ‘ndrangheta é isto: adoração do mal e desprezo do bem comum”, “os maviosos, não estão em comunhão com Deus, são excomungados” e a minha gente não fará comparação com João Paulo II em Agrigento, mas perguntará a mim porque nas minhas homilias sou assim tão politically corect Sempre ontem, de manhã aos padres como eu dizia que não devemos pôr “ao centro nós mesmos e assim em vez de sermos canais tornamo-nos ecrãs” e estou certo que basta me sentar no confessionário e escutar com superficialidade, alguém, seguramente, me r…