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O tempo do Advento marca o começo do Ano Litúrgico e prepara para a celebração da festa do Natal. É preciso ter em conta estes dois aspectos para compreender bem o sentido e a importância do primeiro período do calendário litúrgico.
Efectivamente, poderíamos ficar desconcertados ao verificar que é preciso esperar até ao quarto domingo que, às vezes, cai na véspera do Natal, para ver que, finalmente, a liturgia evoca os factos relacionados com o nascimento do Senhor: vocação e missão de José relativamente a Maria e ao menino que Ela trazia no seio; visitação de Nossa Senhora a Isabel, mãe de João, o Percursor. Dá a sensação de que nos esquecemos dele e que, repentinamente, a liturgia se lembra de que o Advento precede imediatamente a celebração do Natal de Jesus, “na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes” (Mt 2,1).
No primeiro domingo, todos os textos proclamados evocam a manifestação do Senhor no fim dos tempos e a urgência da preparação para este final da história dos homens na terra. No segundo e terceiro domingos, é a voz de João Baptista que ressoa, exortando a preparar os caminhos do Messias anunciado pelas Escrituras. Pois bem, esta evocação remete para o ministério público de Jesus, para a missão da Igreja e para a pregação do Evangelho. Tudo isto demonstra, com bastante evidência, que o horizonte do Advento não se limita ao nascimento do Menino Jesus em Belém, considerado como acontecimento isolado. Embora não tenha precedentes e seja um facto único, situa-se na trama ininterrupta de salvação, desde as suas origens até ao seu pleno cumprimento.
Para captar o verdadeiro sentido e a importância decisiva do nascimento do Filho de Deus na nossa carne é necessário considerá-lo numa continuidade dinâmica com as sucessivas manifestações do Senhor. Já antes tinha vindo de muitas formas e, agora, fez-se homem, ultrapassando o imaginável das expectativas milenárias dos séculos; vem hoje e voltará um dia na sua glória. O tempo do Advento celebra esta tripla vinda de Jesus. As poucas semanas que precedem a festa do Natal constituem uma importante iniciação ao mistério insondável da incarnação que desde então é o âmbito em que vivemos na fé e na esperança.
O tempo do Advento é também uma notável e frutuosa introdução no mistério, no “sacramento”, do Ano Litúrgico. Deus esteve sempre presente no mundo para fazê-lo chegar a sua salvação. Contudo, “no período final em que estamos” (Hb 1,2), tornou-se presente entre nós através de Cristo e do seu Espírito. Por força da mediação dos sinais eficazes - Palavra, Liturgia e Sacramentos - participamos, aqui e agora, tal como somos, pessoalmente e na Igreja, na salvação que, dia após dia, chega ao mundo.
Por conseguinte, nenhum tempo litúrgico é semelhante aos que já o precederam e já se viveram. Cada celebração não é simplesmente recordação ou comemoração de um acontecimento do passado, mas encontro singular entre Deus que salva e a assembleia, por modesta que seja, reunida ao Seu convite e em Seu nome. Deus actua sempre de maneira nova, inédita, inédita e surpreendente. Por outro lado, nós vamos a esse encontro com disposições e necessidades que variam constantemente. A fé, a esperança, a aridade, a fidelidade ao chamamento do Senhor, a generosidade, tudo o que nos estabelece diante de Deus está em mudança contínua, para melhor ou para pior. Não caminhamos sempre com um passo uniforme por uma rota escolhida de uma vez para sempre e sem nunca nos desviarmos. Portanto, tudo contribui para que cada Ano Litúrgico seja realmente novo.

Na primeira vinda, o Senhor veio em carne e debilidade; nesta segunda, em espírito e poder; e, na última, em glória e majestidade. Esta vinda intermédia é como que uma senda por que se passa da primeira para última: na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; nesta é o nosso descanso e o nosso consolo. (São Bernardo, Homilia sobre o Advento)

Missal Quotidiano - Paulus 2010

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