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Este é o DIA!



Aquele Sábado que precedeu o Domingo de Páscoa foi um Sábado diferente de todos os outros Sábados. As mulheres da Galileia preparavam em segredo aromas, mas era escuro no coração delas. Também a Mãe de Jesus esperava em silêncio. É o Sábado do silêncio de Deus.
É também assim para mim, sentado diante do sepulcro.
Mas chegou o terceiro dia, e uma manhã, ou uma tarde, ou melhor ainda uma noite, numa esquina (Mt 28,9), ou num jardim (Jo 20), ou no silêncio do meu quarto, o encontro acontecerá, será como e quando ele quiser. A mim basta desejar e fazer memória e esperar. E o reconhecerei, como as mulheres, graças a dois sinais que não enganam: um sacro temor, uma trepidação da cruz de quem ama mas se espaventa, e uma alegria que aumenta dentro de mim, humilde e forte. Então correrei como Maria de Magdála, como as outras mulheres, para anunciá-lo, “com temor e grande alegria”. Para dizer com a vida: Cristo é vivo!
A mim não basta saber que Cristo é morto, uma cruz a mais entre os tantos patíbulos da terra, eu devo saber se Cristo resuscitou. “Aquilo que faz crer é a cruz, mas aquilo na qual cremos é a vitória sobre a cruz” (Pascal). Esta é a aposta da minha fé: Jesus é vivo, hoje. Enquanto quem não acredita me dirá: não, Jesus é morto. A diferença está aqui sintetizada. Eu creio que o futuro não pertence à violência. Este é o sentido da Páscoa para a nossa história, onde a ressurreição de Cristo não está nunca separada da nosso própria ressurreição.
A Páscoa é o mais árduo e o mais lindo tema de toda a Bíblia. Árduo porque é contrário a todas as evidências e lógicas, lindo (se creio)porque é a vida que se reacende de VIDA. Páscoa não é somente a “salvação”, que é libertar-nos da perdição e das águas impetuosas que nos ameaçam, mas Páscoa é também “redenção”, que é muito mais, que é transformar a fraqueza em força, a maldição em benção, a cruz em glória, a traição de Pedro em acto de fé, o meu defeito em energia nova, fuga numa corrida veloz de regresso.
A manhã de Páscoa é caracterizada por uma corrida frenética e continua. Maria corre ara anunciar a Simão e ao outro discípulo que Jesus amava que o sepulcro era vazio, Pedro e João correm em direcção ao sepulcro… Porque todos correm? Que necessidade há de correr? Tudo aquilo que toca Jesus não suporta mediocridade mas merece a pressa do amor: o amor tem sempre pressa, quem ama está sempre atrasado na fome dos abraços. Correm impelidos por um coração em tumulto, porque eram cheios de ânsia pela luz. Pensemos em João. Ele viveu por inteiro o drama da paixão, estando muito próximo ao seu mestre. Correu mais do que Pedro e antes de todos os outros viu e acreditou. Quem ama ou é amado compreende mais e melhor. O primeiro sinal da Páscoa é o túmulo vazio, o corpo ausente. Na história humana falta um corpo para fechar a conta dos injustiçados e mortos inocentemente. Falta um corpo á contabilidade da violência e da morte. A Páscoa levanta a nossa terra, esta planeta de sepulcros, para um mundo novo, onde o mal não vence, onde o carnífice não terá razão sobre o inocente. Pasqua: “o bom perfume de Cristo é odor de vida que conduz à vida” (2Cor 2,16)

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Aqui escreves TU

Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem.  Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente c…

O carinho do Papa Francisco que irrita muitos padres

É uma coisa maravilhosa mas, por exemplo, também João Paulo II foi à cadeia encontrar o seu assassino Ali Agca. Mas desta vez, aposto, acontecerá que alguém da minha paróquia me perguntará porque razão, a partir do momento que o Papa foi até Calábria, porque eu não vou nem mesmo visitar a senhora Pina que habita numa casa popular, e passou todo o inverno sem aquecimento porque não se fez a reparação no sistema. Sempre em Calábria, na missa da tarde de ontem disse: “a ‘ndrangheta é isto: adoração do mal e desprezo do bem comum”, “os maviosos, não estão em comunhão com Deus, são excomungados” e a minha gente não fará comparação com João Paulo II em Agrigento, mas perguntará a mim porque nas minhas homilias sou assim tão politically corect Sempre ontem, de manhã aos padres como eu dizia que não devemos pôr “ao centro nós mesmos e assim em vez de sermos canais tornamo-nos ecrãs” e estou certo que basta me sentar no confessionário e escutar com superficialidade, alguém, seguramente, me r…