Avançar para o conteúdo principal

Crer para ver!



O Evangelho deste segundo Domingo da Páscoa fala-nos do encontro de Jesus ressuscitado com o apostolo Tomé que queria ver para crer. Por isso muitos chamam Tomé de incrédulo. Na verdade a mensagem deste passo evangélico é uma outra bem diferente. É uma mensagem muito profunda e actual.
Tomé, um dos doze, não era presente quando Jesus apareceu aos seus discípulos uma semana antes e não quis acreditar no testemunho dos outros que lhe diziam. “Vimos o Senhor”. Tomé põe uma condição sine qua non: “se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter os dedos no lugar dos cravos e a mão no seu lado não acreditarei”
Tomé é exigente. Para crer quer ver! Não deseja um milagre para poder crer. Não! Quer ver os sinais nas mãos, nos pés e no lado! Não acredita num Jesus glorioso separado do Jesus humano que sofreu na cruz. Quando João escreve, no final do primeiro século, existiam pessoas que não aceitavam a vinda do Filho de Deus na carne humana. Eram os agnósticos que desprezavam a matéria e o corpo. João apresenta esta preocupação de Tomé para criticar os agnósticos: “ver para crer”. A dúvida de Tomé faz também aparecer a dificuldade em crer na ressurreição.
O texto diz “seis dias depois”. Isto significa que Tomé foi capaz de sustentar a sua opinião durante uma semana inteira contra o testemunho dos outros apóstolos. Cabeça dura! Ainda bem! Assim, seis dias depois, no meio de uma reunião da comunidade, viveram de novo a experiência profunda da presença do Ressuscitado no meio deles. As portas fechadas não puderam impedir a presença de Jesus no meio daqueles que crêem nele. Ainda hoje é assim. Quando nos reunimos, mesmo com as portas fechadas, Jesus está no meio de nós. Também hoje a sua primeira palavra é e será sempre: “a paz esteja convosco”. Aquilo que impressiona é a bondade de Jesus que não critica nem julga sumariamente Tomé e a sua incredulidade, mas aceita o seu desafio e diz: “Tomé, põe o dedo nas minhas mãos!”. Jesus confirma a convicção de Tomé e da comunidade dos discípulos, isto é, O ressuscitado glorioso é o crucificado humilhado e torturado. O Jesus que está na comunidade não é o Jesus glorioso que nada tem a ver com a nossa história mas é o mesmo Jesus que viveu sobre esta terra e no seu corpo traz os sinais da sua paixão. Tomé crê neste Jesus, e nós também!

Comentários

Aqui escreves TU

Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem.  Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente c…

O carinho do Papa Francisco que irrita muitos padres

É uma coisa maravilhosa mas, por exemplo, também João Paulo II foi à cadeia encontrar o seu assassino Ali Agca. Mas desta vez, aposto, acontecerá que alguém da minha paróquia me perguntará porque razão, a partir do momento que o Papa foi até Calábria, porque eu não vou nem mesmo visitar a senhora Pina que habita numa casa popular, e passou todo o inverno sem aquecimento porque não se fez a reparação no sistema. Sempre em Calábria, na missa da tarde de ontem disse: “a ‘ndrangheta é isto: adoração do mal e desprezo do bem comum”, “os maviosos, não estão em comunhão com Deus, são excomungados” e a minha gente não fará comparação com João Paulo II em Agrigento, mas perguntará a mim porque nas minhas homilias sou assim tão politically corect Sempre ontem, de manhã aos padres como eu dizia que não devemos pôr “ao centro nós mesmos e assim em vez de sermos canais tornamo-nos ecrãs” e estou certo que basta me sentar no confessionário e escutar com superficialidade, alguém, seguramente, me r…