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Quaresma, tempo de prova!

Com o austero e penitencial rito da imposição das cinzas, a Igreja que celebra o mistério de Cristo, inicia o tempo da Quaresma: quarenta dias em vista da Páscoa, evento que deve ser preparada com muita oração, com uma escuta mais atenta da Palavra de Deus, com um estilo de vida sóbrio e solidário com os outros, começando pelos mais pobres. 
Ao centro da Quaresma está o convite à conversão: mas de qual conversão se trata? A nossa resposta vai imediatamente em direcção a uma conversão de tipo moral, ou seja, uma conversão dos nossos comportamentos. Todavia, se nos deixarmos guiar pelo modelo fundamental da Quaresma cristã, que é o tempo passado por Jesus no deserto, antes do início do seu ministério público (é o Evangelho do primeiro Domingo da Quaresma)  e a tentação que ele viveu, notaremos que em primeiro plano está uma conversão, que chamaria “teológica”, que tem a ver com a nossa imagem de Deus e da relação que vivemos com ele. 
Os evangelistas concordam na leitura deste tempo como uma “experiência espiritual” no forte sentido do termo: Jesus foi conduzido pelo Espírito no deserto. Também para nós entrar no tempo da Quaresma não quer dizer antes de tudo propor-se a fazer coisas (mesmo que boas) extravagantes, ou programar quem sabe lá quais exercícios de vida cristã, mas se trata, outrossim, de deixar operar o Espírito de Deus em nós. Este é, talvez, a primeira “coisa a fazer” na Quaresma. 
Sabemos que o número dos quarenta  dias, antes de indicar um período de tempo cronológico (que, no entanto, não é excluído), chama a atenção do leitor das Escrituras para algumas grandes experiências “fundadoras”, em particular o êxodo de Israel no deserto, tempo que Deuteronómio caracteriza como “tempo de prova”: “Recorda-te de todo esse caminho que o SENHOR, teu Deus, te fez percorrer durante quarenta anos pelo deserto, a fim de te humilhar, para te experimentar, para conhecer o teu coração e ver se guardarias ou não os seus mandamentos” (Dt 8,2). 
Também Jesus foi provado sobre o seu ser filho de Deus, como fora precedentemente proclamado no Baptismo (cf. Mt 3,17). De resto, no êxodo, Israel fora considerado como filho que Deus gerou através do dom da libertação (cf. Os 11,1; Dt 8,5). No deserto se tratou de constatar se verdadeiramente Israel acreditava no seu Deus ou não. O caminho do deserto foi a prova dos nove da fé de Israel que devia aprender a caminhar com Deus, conhecido já como libertador, sem pretender garantias. Se trata, em definitiva, da possibilidade para Israel de viver como filho fiando-se totalmente em Deus. O sentido fundamental da fé está exactamente no facto que a promessa de uma boa vida e plena, que Deus põe à nossa disposição dando-nos sinais evidentes, exige que saibamos confiarmos nele e na sua Palavra. É  nesta confiança que Israel falhou durante a travessia do deserto. Ora, Jesus é apresentado na sua Quaresma como o “novo (verdadeiro) Adão” o “novo Israel”. Jesus é aquele que, entrando na mesma prova em que a humanidade e o povo de Deus sairam vencidos, manteve aquela atitude de fé que nem Adão, nem Israel souberam manter.  

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