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Água Viva!



Depois da visão sintética da história da salvação através da memória de Adão e de Abraão nas primeiras leituras dos dois primeiros domingos de Quaresma do ciclo "A", os três próximos domingos, com as imagens da água, da luz e da vida apresentam a temática sacramental ligada à iniciação cristã.   
O dom da água no deserto que sacia a sede do povo durante o caminho do Êxodo é sinal da solicitude de Deus (I leitura); no evangelho o simbolismo da água evoca a acção do espírito e da Palavra, isto é, "o dom de Deus" (Jo 4,10) que dispõe a mulher a acolher o dom da fé; o dom do Espírito é sinal do amor divino no coração do Homem (II leitura).
O evangelho interpela o crente sobre a sede, sobre o desejo que existe em si. E sugere que a nossa sede mais profunda é de encontro e de relação. O encontro de Jesús com a samaritana começa com uma ousadia: "Dá-me de beber" (Jo 4,7). O encontro implica a coragem de quem se faz mendicante apresentando-se despojado ao outro . A mulher procura tirar água mas Jesús pede-lhe que lhe dê de beber. Interrogando-se sobre a pergunta que Jesús lhe faz, a mulher responde: "Senhor dá-me dessa água" (Jo 4,15). Esta pobreza partilhada constitui o ponto de partida do encontro. E o que mata a sede é o próprio encontro: Com efeito, segundo a narração, a mulher não chega a tirar a água do poço e Jesús não chega a bebê-la.
O encontro começa com um péssimo ponto de partida: a inimizade categórica (ou tradicional). Frente a frente não estão duas pessoas, dois nomes, duas biografias, dois sofrimentos, mas duas categorias: um judeu e uma samaritana (“Como é que tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou uma samaritana?" Jo 4,9). A coragem do diálogo, de lançar uma palavra entre si e a mulher permite o início de um caminho que conduz ao encontro e que guia a mulher à fé. O espanto da mulher (“Como?”: Jo 4,9) é o primeiro sinal do caminho da mulher para Jesús, mas que será também um caminho para dentro de si própria, um caminho interior; será a coragem de enfrentar a sua própria e profunda verdade.
“Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz…” (Jo 4,10). Ninguém é apenas uma etnia ou uma categoria social. Da polaridade agressiva e hostil “nós” – “vós” (cf. Jo 4,20), passa-se ao envolvente “eu” – “tu”. Jesús chega a dizer-se e a dar-se com as palavras: “Sou Eu, que estou a falar contigo” (Jo 4,26). Jesús vence as barreiras identitárias que os Homens erguem e que, quando sedimentadas, se tornam por um lado uma segunda pele, uma identidade colada e, por outro, a lente (deformadora) com que vemos os outros rotulando-os com as nossas definições ou aprisionando-os com as nossas categorias. A identidade não é um dado fixo, antes surge do encontro com o outro. 
Momento importante no itinerário do encontro é aquele em que Jesús convida a mulher a passar da pergunta que lhe fez à interrogação que Ele próprio é (cf. Jo 4,10). O verdadeiro diálogo não impõe, mas suscita e aumenta o interesse recíproco. Nutre-se de perguntas novas mais do que respostas claras e definitivas.
O texto apresenta uma pedagogia para a fé em que a mulher reconhece Jesús como profeta (v. 19) e Messias (vv. 25-26.29) e assim se torna discípula, anunciadora de Jesús salvador do mundo (vv. 28-30.39-42). A mulher torna-se crente e evangelizadora. Mas, o caminho do reconhecimento de Jesús, como Senhor, implica um caminho contemporâneo de conhecimento de si mesmo em que, também, os aspectos moralmente mais problemáticos, aqueles que normalmente uma pessoa tem dificuldade de confessar a si própria, são reconhecidos. 
Só assim o encontro acontece na verdade. Ponto culminante e de verdade deste encontro é o momento em que a mulher recebe de Jesús a descrição de tudo aquilo que ela fez (v. 29). A história que ela escondia, por vergonha, a si própria, é substituida por outra que a acolhe e não a julga, levando-a a aceitar-se e a conhecer-se diante de Jesús.
(www.monasterodibosi.it)

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