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A Bíblia e o Telefone



13 do 10 do 10. Três números a somar 33 – um número mágico já registado pelos 33 mineiros do Chile. Uma data do calendário que vai ficar para a história: 13 de Outubro de 2010.
Depois de 69 dias – mais noites do que dias – nas profundezas da terra, a mais de 600 metros de profundidade, na mina de San José, no norte do Chile, a humanidade pôde celebrar a vitória da fé e da tecnologia: os 33 mineiros “renasceram” do ventre da Mãe terra. Sãos e salvos. Emocionados e a contagiar-nos a todos com a sua saga.
         Cada um destes 33 homens é uma imagem a reter para a posteridade. Mais uma vez, os mídia puseram-nos o coração a bater a uníssono com o coração de cada um deles. E com os cerca de 17 milhões de chilenos. E com os mais de seis mil milhões de seres humanos que habitam a terra. E com o coração de Deus.
Há marcos inesquecíveis nesta aventura com os mineiros, uma das profissões de maior risco. Destaco a saída do primeiro mineiro. Tocou a sorte (e o risco) a Florêncio Ávalos, que saiu da cápsula Fénix 2, após 16 longos minutos de trajecto. Emocionante foi o abraço a sua esposa Mónica e ao pequeno Byron, seu filho de 8 anos. No Chile, os relógios marcavam a meia-noite e quinze minutos do dia 13 de Outubro de 2010 (mais quatro horas em Portugal).
 Outro marco a fixar, a saída do último mineiro, o 33º, Luís Urzúa, o líder do grupo. Eram as 21h55 do mesmo dia 13 de Outubro.
         Neste apontamento quero deixar registada a saída de dois outros mineiros: Cada um deles, triunfante, empunhava um símbolo diferente e complementar: Omar Reygadas, o mineiro 17º, surgia com a Bíblia na mão; e  Ariel Ticona, o mineiro 32º, apresentava-nos o telefone.
         Estas duas imagens fizeram-me recuar a 4 de Dezembro de 1963. Ao fim da primeira sessão, os Padres do Concílio Vaticano II aprovavam dois emblemáticos documentos: um sobre a Liturgia, o diálogo, a comunicação com Deus, onde é decretado que se abram mais amplamente ao povo os tesouros da Palavra de Deus. Um segundo documento sobre as relações com as pessoas, as comunicações sociais, apresentadas entre as maravilhas do nosso tempo.
         47 anos depois, as mesmas vertentes, com idêntica carga simbólica, como expressão de vida e de luta: a Bíblia e o telefone. A comunhão com Deus, a comuncação com os outros.
         Partiu dos Cristãos da Igreja Adventista do Sétimo Dia do Chile a iniciativa de fazer chegar a cada mineiro um exemplar da Bíblia em miniatura. Junto a cada uma das Bíblias em miniatura, foi enviada uma lupa para facilitar a leitura.  Foi destacado o Salmo 40:

 «Invoquei o Senhor com toda a confiança;
Ele inclinou-se para mim e ouviu o meu clamor.
 Tirou-me dum poço fatal, dum charco de lodo;
assentou os meus pés sobre a rocha
e deu firmeza aos meus passos.
Ele pôs nos meus lábios um cântico novo,
um hino de louvor ao nosso Deus» (Sl 40,2-4)

A Bíblia chegou às mãos dos mineiros no dia 26 de Agosto. Em sintonia com eles, também os seus familiares e amigos liam e meditavam a Palavra de Deus no deserto chileno de Atacama, como esperança de um povo que luta, certeza da presença do Deus Libertador, o Deus do Êxodo e da Ressurreição.
A operação de resgate de Omar Reygadas, de 56 anos, terminou por volta das 13h40. Ele apresentou-se tranquilo e, com a sua Bíblia na mão, ajoelhou-se para agradecer a Deus  o «milagre» da sua salvação. «A chegada da Bíblia deu-me tanta fé que eu sei que vou sair daqui» – confessara Renán Ávalos, o 25º mineiro a ser resgatado.
Mas há mais. Também umas t-shirts com mensagens religiosas e bíblicas tinham chegado ao interior da mina de San José. Assim, Alex Vega, o 10º mineiro a ser resgatado, ao sair da mina, apareceu com a Bíblia na mão e mostrando com orgulho a t-shirt que enverga por cima do traje verde de salvamento. Podemos ler: «Gracias, Señor!». As letras são garrafais. Obrigado, Senhor! Na parte superior há um versículo do Salmo 95:
«Na sua mão estão as profundezas da terra
e pertencem-lhe os cimos das montanhas.» (Sl 95,4)

Por coincidência, na celebração deste Domingo, Paulo escreve ao seu discípulo Timóteo, inculcando-lhe o amor à Palavra de Deus, como caminho de sabedoria e de salvação:
«Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras; elas podem dar-te a sabedoria que leva à salvação, pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura, inspirada por Deus, é útil para ensinar, persuadir, corrigir e formar segundo a justiça.» (2 Tm 3, 15-16)

Entretanto, a 2 de Setembro, o Papa Bento XVI tinha enviado a cada mineiro um Terço benzido por ele…

Além da Bíblia, que proporcionou a estes mineiros soterrados o diálogo pessoal com Deus, há um segundo símbolo muito significativo: o telefone.. Foi Ariel Ticona, o penúltimo mineiro a ser resgatado das profundezas da terra, quem se apresentou, triunfante, de telefone na mão. Eram 21h30. Foi aquele o primeiro telefone a ser utilizado pelos mineiros para comunicarem com os técnicos e familiares durante os 69 dias que permaneceram nas entranhas da terra. Ariel era o encarregado das comunicações. Aquele telefone foi o seu instrumento de salvação. «O inferno são os outros» – sentenciou Sartre. Corrigimos: O inferno é a ausência dos outros. E do Outro.
A saga dos mineiros chilenos constitui, entre outras coisas, um hino à fé e à técnica, uma e outra ao serviço da pessoa.
«Gracias, Señor!»
Obrigado, Senhor!
Obrigado, mineiros do Chile!
Santos – SP / Brasil, 17 de Outubro de 2010
frei Acílio Mendes

Veja aqui link para o vídeo no Youtube com Omar Reygadas, saindo da cápsula com a Bíblia na mão: 

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