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Aquele excessivo amor!

Sabemos que Francisco celebrava várias Quaresmas durante o ano. Eram sempre momentos de grande oração e recolhimento. Momentos inteiramente dedicados a Deus. Uma destas quaresmas, a de S. Miguel Arcanjo de 1222 no cimo do Monte Alverne, Francisco viveu uma experiência singular e determinante: foram-lhe impressas as chagas de Cristo crucificado. 
Numa sua carta circular o ex-Ministro Geral dos capuchinhos, frei John Corriveau, actual bispo de Nelson, Canada fazia esta reflexão:   
“A cruz de Jesus envolve Francisco desde os primeiros momentos da conversão até quando desce do Alverne, ícone do Crucificado. Ele encarnou as palavras de São Paulo: “Quanto a mim, que eu me glorie somente da cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo. Por ele, o mundo está crucificado para mim, como eu estou crucificado para o mundo” (Gl 6,14).
Francisco foi transformado pela compaixão do Crucificado. No Alverne rezou: “Que eu sinta no meu coração... aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal paixão por nós pecadores” (Fior – Terceira consideração dos sacrossantos estigmas). “Aquele excessivo amor” impulsionou Francisco ao abraço do leproso e mudou para sempre a sua relação com os outros: “E enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo” (Test 1,3). “Aquele excessivo amor” do Crucifixo de São Damião transformou o seu modo de ser: “Entrou para rezar... e... sentiu-se diferente do que tinha entrado... nem ele mesmo conseguiu exprimir a sensação inefável que teve” (2C 6,10). Essas experiências mudaram o coração de Francisco. Falando dos leprosos, Francisco declara: “E o Senhor mesmo me conduziu entre eles (os leprosos) e eu tive misericórdia com eles” (Test 1,2). Celano, referindo-se a São Damião, diz: “Desde essa época, domina-o enorme compaixão pelo Crucificado” (2C 6,10). 
Boaventura vê Francisco, transformado pelo amor cheio de compaixão, como a imagem e o ícone da humanidade redimida. E usa palavras poéticas para descrever esse afeto em Francisco: “O verdadeiro amor de Cristo transformara o amante na própria imagem do amado” (LM 13,5). E serve-se da imagem do Monte Sinai para apresentar a humanidade transformada de Francisco como uma nova revelação de Deus:
“Francisco desceu do monte trazendo em si a imagem do Crucificado, não porém esculpida em tábuas de pedra ou de madeira por mão de algum artífice, mas marcada em sua carne pelo dedo de Deus vivo” (LM 13,5).
“Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus” (Fl 2,5). Introduzindo com essas palavras o seu esplêndido hino cristológico, Paulo indica que “a obediência da cruz” não foi somente a missão de Jesus, mas é aquilo que todos devem cumprir para alcançar a plenitude da vida cristã. Somos chamados a ser vasos de amor cheio de compaixão. Esta e a mensagem da “teologia da vida” de Francisco de Assis. A “efígie do Crucificado” da qual falava Boaventura era algo mais que os sinais que Francisco carregava no seu corpo. Francisco trazia no coração o amor cheio de compaixão do Crucificado:
Crucificado agora com Cristo em sua carne e em seu espírito, ardia Francisco como ele de um amor seráfico por Deus e como ele tinha sede da salvação dos homens... Sentia, além disso, um intenso desejo de voltar aos inícios de sua vida humilde para consagrar-se outra vez ao serviço dos leprosos” (LM 14,1)".

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