Avançar para o conteúdo principal

TENHO SEDE!



Tenho sede! Aqui, do alto desta cruz, um triste púlpito que lança sombra sobre o significado da minha existência, um unico grito sai desta minha carne humilhada, açoitada, arada pelas garras de uma paixão, de um amor não correspondido ou, talvez, simplesmente não entendido. E de um horizonte marcado pela drama dramática do morrer, duma vida que só tem o sabor de lágrimas, que se nutre de um pão empastado com o fermento de amargura, como por um instinto, aquela promessa que diz a beleza da existência e o valor de uma vida escolhida e vivida, faz amadurecer e nascer um grito: tenho sede! Talvez a última tentativa de uma vida que agora encontra-se impotente para travar uma batalha que já se sabe o resultado, em memória dolorosa desta experiência, contra os suspiros do fracasso, da solidão, do abandono, contra aquela voz , mais forte do que qualquer outra tentação, que continua a dizer que talvez nada, e até a propria vida, faz sentido: Tenho sede! Uma sede, que constrói a ponte sobre o fosso que está enraizado no mundo e no coração dos homens quando a morte encontra a vida e a decreta o fim; uma sede que, talvez, duma maneira inconsciente e além de qualquer razão plausível, anuncia que esta vida é habitada por um sentido que não apaga o primeiro, a minha existencia e os desejos que a acompanharam, mas que aqui, sobre esta dura madeira, sobre esta cruz, empurra-a para uma forma plena.

E esta sede, a sede por Aquele que é perfurado por nós, aquele que nos cura com as suas chagas, o Crucificado, neste seu grito (porque agora as palavras já não são sussurradas, mas gritadas), e na sua história trágica que, mesmo através da morte, anuncia o sentido da vida, dando-a uma forma plena, traz à luz, esclarece e justifica aquelas sedes profundas que orientam o nosso caminho; sede que conserva a profunda autenticidade, espessura, profundidade, mesmo quando ostenta os sinais evidentes do fracasso, da rejeição, da crise que a própria vida, que muitas vezes nos atrai e muitas outras vezes nos assusta, nos coloca no tapete do nosso caminho e no intimo da nossa sofrida respiração.

Tenho sede! Uma necessidade que profundamente abraça a identidade do homem que grita para a vida. Tenho sede! Um grito que diz a dignidade de uma promessa.
Tenho sede! A dependência che diz que a realização do existir.

Tenho sede!
Talvez como o grão de trigo que, germinando na terra árida e nas estepes de desilusões, rasga a crosta para renovar a sua existência, na tentativa e no desejo de ser acolhido na vida através o caloroso abraço de uma estrela.

Tenho sede!

Comentários

  1. Olá Frei Frede... paz e bem!! Uma Feliz e Santa Páscoa. Sou da JUFRA de SP e OFS das CHAGAS. Abraço. Cida

    ResponderEliminar
  2. acesse tb nosso blog.. www.ofsjufradaschagas.blogspot.com

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Aqui escreves TU

Zacarias, o mudo que fala de Deus!

"Entretanto, chegou o dia em que Isabel devia dar à luz e teve um filho. 58 Os seus vizinhos e parentes, sabendo que o Senhor manifestara nela a sua misericórdia, rejubilaram com ela. 59 Ao oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 Mas, tomando a palavra, a mãe disse: “Não; há-de chamar-se João.” 61 Disseram-lhe: “Não há ninguém na tua família que tenha esse nome.” 62 Então, por sinais, perguntaram ao pai como queria que ele se chamasse. Pedindo uma placa, o pai escreveu: “O seu nome é João.” (Lc 1,57-63)

O versículo 62 deste texto bem conhecido apresenta, aparentemente, uma dificuldade de interpretação. Em Lc 1,20 lemos: Vais ficar mudo, sem poder falar, até ao dia em que tudo isto acontecer, por não teres acreditado nas minhas palavras, que se cumprirão na altura própria. A tradução deste versículo pode começar de outro modo: Vais ficar em silêncio e sem capacidade (força) para falar. Não é absolutamente linear que o verbo siwpáw signi…

FRUTOS DA TERRA E DO TRABALHO DO HOMEM

(Depois da minha homilia no passado domingo na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, muitos mostraram-se interessados acerca da simbologia do Pão e do Vinho. Aproveito para partilhar o texto ao qual me inspirei para a minha homilia. O texto é de Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose - Itália)
É significativo que a palavra “Pão” apareça ao início da Bíblia sob o signo do trabalho, da fadiga, do suor: “comerás o pão com o suor da tua testa” (Gen 3, 19). De facto o pão significa antes de tudo comida, aquilo que sustém o homem, aquilo que é absolutamente necessário e que o homem deve procurar com o duro trabalho da terra. Quando à palavra “vinho”, ela aparece pela primeira vez no episódio de Noé, o patriarca supérstite do dilúvio  o qual, plantou uma vinha para se consolar e das uvas fez o vinho e bebendo-o embriagou-se (Gen 9,20-21). Assim o vinho é consolação mas também é capaz de provocar comportamentos indignos de um homem.  Mas, eis que quando a história aparece inequivocamente c…

O carinho do Papa Francisco que irrita muitos padres

É uma coisa maravilhosa mas, por exemplo, também João Paulo II foi à cadeia encontrar o seu assassino Ali Agca. Mas desta vez, aposto, acontecerá que alguém da minha paróquia me perguntará porque razão, a partir do momento que o Papa foi até Calábria, porque eu não vou nem mesmo visitar a senhora Pina que habita numa casa popular, e passou todo o inverno sem aquecimento porque não se fez a reparação no sistema. Sempre em Calábria, na missa da tarde de ontem disse: “a ‘ndrangheta é isto: adoração do mal e desprezo do bem comum”, “os maviosos, não estão em comunhão com Deus, são excomungados” e a minha gente não fará comparação com João Paulo II em Agrigento, mas perguntará a mim porque nas minhas homilias sou assim tão politically corect Sempre ontem, de manhã aos padres como eu dizia que não devemos pôr “ao centro nós mesmos e assim em vez de sermos canais tornamo-nos ecrãs” e estou certo que basta me sentar no confessionário e escutar com superficialidade, alguém, seguramente, me r…